"O torturador não é um ideólogo, não comete crime de opinião, não comete crime político, portanto. O torturador é um monstro, é um desnaturado, é um tarado" (Ayres Brito)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

GABARITO DA AVALIAÇÃO DE ANTROPOLOGIA JURÍDICA 05/07/2017

GABARITO DA PROVA DE ANTROPOLOGIA 05/07/2017
1) Explique o que vem a ser a Escola Antropológica denominada por “Evolucionista” e também, qual o problema provocado por conta das conclusões dos adeptos da teoria Evolucionista quando do encontro com outras culturas, outros povos:
RESPOSTA: Para os “Evolucionistas” o convívio com a natureza, ou seja, a influência do homem ao ter que se adaptar com as condições da natureza, clima, busca de alimentos, caça, fez com que houvesse a evolução do homem em diferentes níveis, em diferentes regiões, de conforme a sua adaptação com essa influência externa provocada pela natureza. Neste sentido, não as espécies mais fortes sobreviveriam e sim as que melhor se adaptassem ao ambiente em que viviam e as mudanças ocorridas neste ambiente.
O problema com relação aos adeptos de referida teoria é que, a partir da concepção da Teoria Evolucionista surgiram as teorias a respeito do relativismo cultural, superioridade cultural, em que determinadas culturas se julgaram superior a outras culturas em razão do estágio de desenvolvimento tecnológico que determinados povos se encontravam e isso foi a semente da serpente para as doutrinas fascistas, nazistas, nacionalistas que tanto horror já causaram na humanidade.
2) Explique a importância da “cultura” para a Escola Antropológica denominada “Funcionalista:
RESPOSTA: Na Escola Antropológica Funcionalista a cultura foi valorizada como ferramenta de estudo para buscar entender as sociedades primevas e tentar compreender como se desenvolviam. Destaca-se nesta escola o entendimento de que o desenvolvimento de grupos humanos deveriam estar relacionados e permeados à determinados valores que fortalecessem a união do grupo.
3) Com relação a Escola Antropológica denominada “Estruturalista Marxista” explique como ocorreriam as forças exteriores que poderiam forçar a alteração das superestruturas formadas, por exemplo pelo conjunto da família, religião, cultura e política):
RESPOSTA: Para a Escola Antropológica denominada Estruturalista Marxista, as superestruturas de uma sociedade formadas pela família, religião, cultura, política, etc, não estavam imunes a influências externas, como por exemplo uma crise na produção econômica, ou uma crise na quebra de uma produção agrícola provocada por um inverno severo que provocasse fome no povoado e essas crises, obviamente, traziam nervosismo, reivindicações e distensões que acabavam por provocar mudanças nas estruturas, sejam elas familiares, religiosas, culturais e na própria política, por essa razão recebeu o nome de escola Estruturalista Marxista. Na sala de aula dei como exemplo para vocês a questão da Revolução Francesa, o povo já estava pagando muitos impostos, e haviam alguns problemas estruturais, mas o estopim para que o povo realmente se convulsionasse em uma revolução de nível tão avassalador, além das ideias iluministas, foi um fator externo de causa natural que foi um inverno muito rigoroso que provocou a quebra da produção agrícola e muita forme.
Para citar um cenário parecido atual, alguns cientistas sociais e políticos brasileiros e estrangeiros acreditam que mesmo com um congresso tão corrupto, com um presidente denunciado por tantos crimes, com um ambiente político tão podre, envolvendo inclusive o Poder Judiciário, o povo brasileiro só irá mesmo se revoltar a ponto de “virar a mesa” se ocorrer algo semelhante no Brasil a ponto de provocar enorme índice de desemprego, fome e revolta.
4) Explique o que vem a ser um hominídeo e qual a importância para a evolução humana da liberação das mãos:
RESPOSTA: Hominídeo é o homem em sua fase de lenta evolução física e intelectual do primata até alcançar a espécie atual. A importância de liberar as mãos é que a partir do momento em que deixar de usar os membros superiores apenas para locomoção e passa a utilizar para confeccionar utensílios e demais habilidades, essa ação, provoca o desenvolvimento de nosso cérebro o que foi considerada uma etapa importantíssima na cadeia evolutiva de nossa transformação de hominídeo para homem, homo sapiens.
5) Explique o que é a Antropofagia e explique ainda se na história humana essa prática entrou como prática cultural ou necessidade para o desenvolvimento da humanidade:
RESPOSTA: Antropofagia é a prática de se comer carne humana ou partes do corpo do inimigo ou do guerreiro derrotado, acreditando, por vezes, na transferência de seus poderes para as pessoas que se alimentam com sua carne. Essa prática foi considerada uma das etapas importantíssimas de evolução da humanidade já que a proteína da carne foi essencial para o desenvolvimento do cérebro humano em múltiplas áreas e habilidades de homo que o hominídeo buscou essa proteína tanto em animais como na prática do canibalismo. Por um determinado tempo se acreditou que a antropofagia foi uma ação cultural, no entanto, depois de vários estudos, chegou-se a conclusão que foi mais uma necessidade do que apenas uma prática cultural.
6) Explique a relação entre o conhecimento alcançado pelo homem na sua evolução e a relação deste conhecimento com a Dominação da Natureza, citando ainda algumas das consequências principais consequências apresentadas pelo autor:
RESPOSTA:  O desenvolvimento do conhecimento potencializa enormemente a dominação e a exploração da natureza pelo homem e do homem pelo próprio homem: quando conhece o funcionamento da natureza deixa de respeitá-la e passa a dominá-la. Neste sentido, com o sentimento de domínio sobre algo, não doa mais, passa se apropriar, negociar, trocar, vender. Quando conhece passa a explorar e dominar a natureza e seu semelhante, o próprio homem. Dá um salto do natural para o industrial, do mito para a religião, da tolerância para a intolerância e os interesses mesquinhos, da regra ao poder da divisão, da solidariedade, para a propriedade privada, o surgimento de posse, os conflitos, etc.
7) Com relação ao documentário À margem do Corpo de Débora Diniz, e relacionando com o que você aprendeu a respeito das escolas antropológicas e o poder das instituições na sociedade, com base neste aprendizado, qual a instituição que mais influenciou/tumultuou a vida de Deuseli no trauma e consequências do “estupro” que a acometeu: ( Essa questão possui algo grau subjetivo também, para alguns será a instituição Estado, para outros a Igreja/Religião, para outros a Justiça, etc)
RESPOSTA: Deuseli foi prejudicada por inúmeras instituições, pela Justiça, pela Saúde, pelo Estado, pela Sociedade, mas, sem dúvida alguma, a Igreja foi a instituição que mais lhe prejudicou. A igreja tentou influenciar Deuseli em várias fases de seu drama, causando certamente enorme confusão, mas a meu ver, e talvez a pior e imperdoável influência da igreja para com Deuseli foi tratar uma questão médica, que necessitava de atendimento médico, como um fenômeno de possessão demoníaca o que, certamente, deve ter causado maiores danos neurológicos, provavelmente irreversíveis.  
8) Levando-se em consideração a Escola Antropológica denominada Funcionalista, realize uma análise antropológica do Documentário À margem do corpo, em especial, no tocante, as mais diversas formas com que Deuseli foi classificada ao longo do documentário:
RESPOSTA: Para a Escola Funcionalista a cultura e os valores culturais possuem um valor muito grande e neste sentido, quando Deuseli é classificada pejorativamente das mais diversas formas ((+/-) negra, (+/-) estuprada, (+/-) feia, (+/-) vítima ou (+/-) prostituta, entre outros tantos atributos (na moral do que é pensado como bem ou como mal) é possível observar os valores de uma sociedade pesando e julgando uma pessoa que, na maioria das vezes, pouco conhecem e referido julgamento é precipitado e bem preconceituoso.
9) Aponte e explique as principais estruturas antropológicas que são possíveis identificar no documentário:
RESPOSTA: A bem da verdade houve um erro ao formular a questão e no local de “apontar as estruturas” o correto seria “apontar as instituições”, neste sentido era para você apontar instituições como a Igreja, a Família, a Justiça, o Estado, a Sociedade, etc.
No documentário podemos identificar inúmeras estruturas antropológicas, tais como
10) Essa é uma questão livre que pretende identificar o seu desenvolvimento perante o curso de direito até o momento, e, em especial, com relação a disciplina de antropologia. Descreva os impactos, o que lhe chamou atenção, comoveu, perturbou etc, com relação a história de Deuseli:

Questão subjetiva e pessoal

terça-feira, 27 de junho de 2017

Documentário "À MARGEM DO CORPO"

Iremos trabalhar com uma Resenha escrita, na época pela doutoranda pela Universidade Federal do Rio Grade do Sul Fanny Longa Romero que realiza uma análise muito rica do documentário À Margem do Corpo de Débora Diniz, o que, no nosso caso, iremos unir ainda, com o estudo das principais escolas antropológicas. 
DINIZ, Debora. À margem do corpo. Documentário. ABA/Fundação Ford, 2006.
DVD, 43 min, cor.
Fanny Longa Romero*
Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Brasil
O documentário À Margem do Corpo, objeto desta resenha, representa o resultado de uma reconstrução de cunho antropológico a respeito de intensos contatos humanos que giram em torno da experiência de vida e morte [ou dupla morte?] de uma mulher chamada Deuseli Vanines: (+/-) negra, (+/-) estuprada, (+/-) feia, (+/-) vítima ou (+/-) prostituta, entre outros tantos atributos (na moral do que é pensado como bem ou como mal), adjudicados a essa mulher no âmbito de incertezas, ambiguidades, adequações e contradições que permeiam os fatos narrados das pessoas entrevistadas pela autora Debora Diniz.
Interessada em conhecer a história de Deuseli sob diversas narrativas, a autora do filme parte de dois processos judiciais que marcam a vida dessa mulher. Em um primeiro momento, vítima de estupro e, em um segundo momento, assassina da sua filha de 11 meses, gerada nesse primeiro ato violento. O documentário, produzido em 2005, com apoio da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e da Fundação Ford, foi filmado nas cidades de Alexânia, Anápolis e Goiânia durante 11 meses, tentando mapear a trajetória de vida de Deuseli, a partir de diferentes relatos de pessoas que direta ou indiretamente conheceram essa mulher, inclusive seu possível estuprador.
A história passa-se em Goiás entre 1996 e 1998, num pequeno povoado do interior desse estado. Fala-se de uma mulher de 19 anos, Deuseli (na atualidade morta), de pais desconhecidos, aparentemente criada por um padrasto abusivo e com uma história de vida presa a inconstâncias provocadas pela pobreza, os maus-tratos e a necessidade de sobrevivência. Nas narrativas dos entrevistados, traçam-se diferentes percepções sobre ela que englobam desde valorações positivas a percepções negativas de acordo com os juízos e as construções culturais operacionalizadas nos discursos.
 Dessa forma, Deuseli ora é apresentada como uma “pretinha não muito bonita, mas afetuosa”, ora como “uma mulher bem, bem morena, preta não tão feia”; ora como uma prostituta, ora como uma mulher possuída por forças espirituais desconhecidas ou malignas; ora como uma mãe desnaturada, ora como uma vítima produto da sociedade na qual está inserida (no total foram três gestações, sendo que na sua última gravidez, Deuseli não pariu seu terceiro filho ou filha). Ela, talvez, quis conduzi-lo(a), através de seu corpo, junto com ela, em direção à morte.
Nesse sentido, o documentário chama atenção a respeito do caráter perturbador do contato direto, íntimo e intersubjetivo da experiência vivida entre indivíduos em relação com as questões simbólicas que permeiam a vida social dos mesmos, numa época e num espaço determinado. Tais contatos dificilmente podem “deixar de afetar a sensibilidade das pessoas que os realizam” por serem, num amplo sentido, permeados por ações simbólicas (Geertz, 2001, p. 31).
 Esta resenha foi pensada, principalmente, no contexto de duas obras, Geertz (1989, 2001) e Sahlins (1979, 1990). De fato, nossa análise se desenvolve em termos de uma experiência interpretativa de segunda ou terceira mão; enfim, uma ficção de sentido, um ato de imaginação antropológica orientado por ações simbólicas. Neste trabalho, alguns aspectos da história sobre Deuseli são, brevemente, recontados em pequenos segmentos localizados entre colchetes como uma maneira de dar inteligibilidade à estrutura textual daquilo pensarmos realizar parcialmente, isto é, “penetrar no próprio corpo do objeto”, e, por outra parte, nos esforçamos em fazer, compreender o conteúdo, (Sahlins, 1979). Nisso, “eis no que consiste a pesquisa etnográfica como experiência pessoal” (Geertz, 1989, p. 10).
 Quanto à história em si mesma, ou melhor, o que fez Deuseli para ser o locus central da história? Nesse caso, pode conceber-se, ao mesmo tempo, como veículo e sujeito da ação e, mais extensamente, como objeto e sujeito de contemplação, interrogação e/ou interpelação. Em última instância, os diversos cenários que permeiam a história e dão sentido à mesma, estes são: o jurídico, o discurso médico legalista, o religioso (católico), a sociedade civil, assim como as relações de patronagem, amizade, vizinhança e de parentesco são, de forma geral, esquemas conceituais entrelaçados que, nos seus termos, dão inteligibilidade a um evento, isto é, uma noção relacional construída no reconhecimento simultâneo de uma contingência histórica ou de uma ação individual e os mapas decorrentes de uma ordem cultural determinada.
As angústias de Deuseli são interpretadas, como muitos narradores pensam, na sua ação previamente intencional de agredir a si mesma cortando seus cabelos com uma faca, se mordendo ou montando um cenário permeado por elementos simbólicos em que seu próprio self misturava-se com alimentos (o feijão derramado na cozinha formando parte do cenário onde ocorreu o estupro), fluídos humanos (manchas brancas secadas no seu corpo; seria sêmen?) e sua própria memória individual (lembranças de agressões abusivas quando criança) classificaram seu corpo e, com seu corpo, um self fazendo-o corresponder com as representações coletivas geradas pela ordem cultural.
O que tais reflexões nos ajudam a entender é que as narrativas dão conta de um arsenal de tramas, negociações, percepções encontradas, interrogações sem respostas definitivas, apreensões de uma realidade em um momento determinado e, sobretudo, reinterpretações que, à luz do trabalho de campo in loco de Diniz, deram novos sentidos a acontecimentos passados. De fato, tudo se passa como se o passado estivesse metaforizado pelo próprio presente que, intencionalmente ou não, quer revesti-lo de uma nova significação e mantê-lo, de certa forma, vivo.
No entanto, em muitos casos, percebemos nas narrativas a procura de verdades caseiras (Geertz, 2001), ou a imposição de uma moral por cima da interpretação cultural. Dessa forma, certas vozes, vindas da ordem religiosa católica, revelam não somente um elevado dogmatismo, refém de uma inextricável violência simbólica perante a vida de Deuseli, mas também uma irracional intervenção, no sentido mais literal do termo, no corpo de Deuseli; corpo este concebido por essa personagem como “um meio de comunicação com o mundo” (Merleau-Ponty, 1971) ou, em termos ainda mais extensos, corpo “sempre presente” entendido pela sua possuidora como um meio de existência simbólica que permitia dar-lhe inteligibilidade à apreensão da sua experiência vivida traduzida nas ações que culminam com a decisão do fim da sua vida e do seu corpo como interlocutor das suas sensibilidades mais angustiantes.
Uma das vozes do texto etnográfico construído por Diniz chega a objetar frente à iminência da fatal (não sei se chamá-la dessa forma seja o mais apropriado) sorte de Deuseli, a necessidade de se fazer um batismo na última criança gerada e morta no corpo dessa mulher. Nesta época, em que discussões como os direitos reprodutivos, os direitos sexuais, a legalização do aborto e o papel da laicidade do Estado brasileiro em particular, estão na arena de um debate ético, político e humanístico, mas também local e global, torna-se conflitante lidar com a ideia de cultura como um epifenômeno. De fato, a eficácia da noção de cultura como uma ordem de significação não pode ser “suspensa”, principalmente quando essas questões levantam-se cada vez com mais força no mundo contemporâneo.
O problema aqui é explodir o conceito de história pela experiência antropológica da cultura? (Sahlins, 1990) ou, como diria Geertz (2001), pelos usos que fazemos da diversidade? A essas alturas, perguntarmo-nos o que isso significa? Quais são os limites da interpretação antropológica ou, melhor, da imaginação antropológica, quando nos situamos discursivamente na composição da descrição densa dos fatos culturais? De que lugar pode-se partir para abordar as tensões criadas no devir da nossa própria existência cultural? Enfim, como dar inteligibilidade às novas estranhezas, inconsistências e contradições geradas na diversidade das ações humanas. Nessas sensibilidades que inquietam, seria possível conceber o documentário de Diniz como “uma estrutura dramática com propriedades de transformação ritual”? (Sahlins 1990, p. 142).
Nesse sentido, a construção de Deuseli poderia interpretar-se dentro de uma análise comprometida com “uma visão de afirmativa etnográfica” e, portanto, tal como nos lembra Geertz (1989, p. 20) “essencialmente contestável”.
Referências GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 1989.
GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
MERLEAU-PONTY, M. Fenomenologia da percepção. Lisboa: Martins Fontes, 1971
SAHLINS, Marshall. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1979.
SAHLINS, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1990